Fraternidade O Caminho

Quaresma 2018

           Á medida que os anos passam e a busca pelo novo se torna, cada vez mais, um imperativo da sociedade pós-moderna, a Igreja, como que na contramão, continua a nos apresentar a Quaresma, naqueles mesmos moldes que a apresentou ao longo dos séculos; como um GRANDE RETIRO. Era assim que a viviam os catecúmenos que se preparavam para receber o Batismo e os Penitentes Públicos para receberem a Reconciliação.
Não há Quaresma sem ESFORÇO PESSOAL, de conversão da vida, por isso empenhemo-nos por dedicar um tempo maior à oração. Esforcemo-nos por guardar o jejum nos dias santos e nas sextas-feiras, assim como de privarmo-nos de alguns alimentos e comportamentos que nos ajudam a reparar as faltas cometidas no passado, a disciplinar-nos na busca pelo autodomínio e a fazer-nos progredir na perfeição cristã. Exercitemo-nos, também, na prática da caridade para com o próximo, sobretudo para com os mais pobres.
Disponhamo-nos uma vez mais a acompanhar Jesus na sua caminhada para Jerusalém. Não nos importemos quanto às motivações e sentimentos que nos levam a fazê-la. Apenas coloquemo-nos em saída.
Caríssimos irmãos e irmãs, se é verdade que costumamos nos preparar com bastante antecedência para celebrar uma festa importante, como a de um aniversário, de uma boda matrimonial, ou mesmo de uma Profissão Religiosa ou Sacerdotal, como não deveríamos, pois, nos prepararmos para celebrar a vitória da vida sobre a morte, da imortalidade sobre a brevidade, da salvação sobre a condenação?
A Festa da Páscoa é, para nós cristãos, a maior de todas as festas. Nela nós celebramos a Paixão, a Morte e a Ressurreição de nosso Salvador. Dada a sua grandeza, seria inimaginável que ela fosse improvisada ou preparada com poucos dias de antecedência, por isso mesmo, a Igreja, ciente da magnitude do mistério celebrado, desde o início distendeu sua preparação por quarenta dias.
A finalidade da Quaresma é ser um tempo de preparação à Páscoa. É “um caminho” para a Páscoa.
O número 40 é um número simbólico e muito usado na tradição bíblica. Expressa ou significa a presença especial ou a ação e a revelação de Deus na vida de uma pessoa, por exemplo, Moisés: E esteve ali com o Senhor quarenta dias e quarenta noites; não comeu pão, nem bebeu água, e escreveu nas tábuas as palavras da aliança, os dez mandamentos (Ex 34:28). Quando subi o monte para receber as tábuas de pedra, as tábuas da aliança que o Senhor tinha feito com vocês, fiquei no monte quarenta dias e quarenta noites; não comi pão, nem bebi água (Dt 9,9). Outro exemplo é o profeta Elias:Levantou-se, pois, comeu e bebeu; e com a força daquela comida caminhou quarenta dias e quarenta noites até o Horeb, o monte de Deus (1Rs 19,8). Um dos exemplos mais conhecidos são os quarenta anos de Israel no deserto antes de entrar na Terra Prometida (cf. Ex 16,35) e o retiro de 40 dias que Jesus fizera no deserto, onde fora tentado (cf. Lc 4,1-13).
Como mencionado no início, na Igreja primitiva, os catecúmenos viviam esses quarenta dias como o último período de preparação para serem batizados no amanhecer do Domingo da Ressurreição. Esses dias eram para eles um período de recolhimento, jejum e oração. Essa disciplina passou a ser seguida também por toda a comunidade em forma de penitência pública. O bispo abençoava os cilícios e as cinzas e impunha-os aos penitentes, que durante quarenta dias, expiavam as suas faltas na expectativa do perdão dos seus pecados por meio da Reconciliação Sacramental.
O cilício e a cinza imposta aos penitentes era uma penitência que tinha sua origem no livro do profeta Joel (2.13),e que também era parte da Antífona de Entrada da Missa da Quarta-feira de Cinzas: Immutémurhabitu, in cínere et cilício; jejunémus, et plorémus ante Dóminum. Mudemos de vestido e cubramo-nos de cinza e de saco, jejuemos e choremos diante do Senhor.
Passada a Quarta-Feira de Cinzas seguem-se os cinco Domingos da Quaresma, que formando como uma unidade entre si, nos ajudam a acompanhar Jesus na sua luta contra o mal e na sua livre entrega ao Pai.
1 Domingo da Quaresma. A Tentação no deserto (Mc 1.12-15)
2 Domingo da Quaresma. A transfiguração (Mc 9.2-10)
3 Domingo da Quaresma. A Expulsão dos vendilhões do Templo (Jo 2.13-25)
4 Domingo da Quaresma. É necessário que o Filho do Homem seja levantado (Jo 3.14-21). Também chamado Domingo Lætare.
5 Domingo da Quaresma – Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer… (Jo 12,20-33).
Já se tornou uma piedosa tradição no nosso meio, celebrar os tempos fortes da Igreja orientados por uma jaculatória. Esse ano, a que irá nos acompanhar, será a seguinte: Per suam passionem, facta est salus. Pela sua Paixão nos veio a Salvação.
Ela nos lembra que foi através da dor que Jesus “comprou” nossa salvação. Além disso, sua dor redentora quer nos ensinar um novo caminho de amor ao Pai, isto é, de que nossas dores, quando associadas as suas, também nos conduzem a Deus.
Jesus, ao submeter-se a dores atrozes, físicas e morais, deu-nos o exemplo e a lição do quanto a dor, associada ao mistério da sua Paixão, é um meio seguro para O vermos face-a-face, para obter a conversão dos nossos entes queridos e do mundo e, para o nosso progresso espiritual e humano. A experiência da dor nos ensina, ainda, o caminho da humildade, pois ela nos faz precisar da ajuda dos irmãos e da intercessão dos santos.
Isso me faz recordar uma pequena reflexão que fizera num momento em que estava passando por uma grande dor e pedia forças ao Senhor para não desanimar: “Impressiona-me, Jesus, a consciência que tendes do que te espera em Jerusalém, mas, que mesmo assim, avances para lá decididamente. Voluntariamente, vai oferecer-Te aos ultrajes, aos tormentos e à morte. Quem, querendo implantar o Reino de Deus faria isso? Tua morte ignominiosa de Cruz poderia ter acabado com tudo, mas, mesmo assim, eu te vejo decidido a não “voltar atrás”. Ajuda-me, Senhor, a unir minha dor à tua, a fim de que ela não seja vã, mas, instrumento de salvação para mim e para os que me confiastes. Ensina-me a ressignificá-la… que não a entenda como castigo, mas como cuidado teu para comigo; que não a suporte com vitimismo, mas com a heroicidade dos santos; que eu a viva na perspectiva da tua Cruz, suportando-a com paz e serenidade”.
Quantos bons desejos temos. Quantos ideais belos construímos: o de uma vida consagrada irrepreensível, o de um casamento harmônico, fiel e para sempre, o de uma comunidade unida, de uma vida de oração assídua, etc., mas quando temos que vivê-los na carne da nossa existência, oh meu Deus, quanto isso nos custa, nos maltrata, nos pede renúncias, lágrimas. O ideal de Jesus era belíssimo: salvar os homens, entretanto, só o levou a bom termo por meio dos sofrimentos; bofetadas, chicotadas, espinhadas, cravos e cruz. Meios tão baixos, irmãos e irmãs, para alcançar ideal tão alto.
Estamos também nós dispostos a nos abaixarmos para alcançarmos nossos belos ideais? Será que o belo ideal a que você se propôs no dia do teu casamento de amar, respeitar e ser fiel ao teu cônjuge na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separasse não está pedindo, nesse momento, que você o viva associado a Paixão de Nosso Senhor?
Por acaso você já se deu conta de que para manter tão grande e belo ideal precisa passar pela dor da conversão, do perdão, da humildade, do abaixamento, de ter o“orgulho ferido”, de ter que viver a experiência do “por essa eu não esperava”? Está claro que se não for na carne da tua existência, ou seja, com todas as dores que isso comporta, o ideal não se manterá?
Como religiosos, já acolhi a dor do que significa viver no mundo sem ser dele a fim de manter o ideal do seguimento a Jesus? Estou convencido de que para viver a vida d’Ele é necessário acolher a dor de não dispor da própria vida como bem entender? De que o ideal que abracei passa pela paixão pascal da castidade, da pobreza e da obediência?  Será que não é exatamente isso o que meu ideal está pedindo agora? Que não abandone o meu ideal como aqueles que abandonaram o Senhor na Cruz.
O Tempo da Paixão precisa nos acordar, do contrário, sucumbiremos na escuridão, como Judas que foi tragado pela noite ao afastar-se do Messias Sofredor naquela última ceia (cf. Jo 13,30).
Não queiramos um Messias fácil, um Messias que nos protege de tudo, como uma mãe obcecada que não permitiu que seu filho criasse anticorpos por medo de deixá-lo brincar no quintal. Da sua superproteção resultou um adulto eternamente doente.
Não queiramos um Messias que não nos exija nada, um Messias que simplesmente concorde com nossa vida de pecado vivida na carne, na alma, nos sentimentos e nas emoções.
Quero ser membro de uma comunidade, mas não quero viver as exigências que o Evangelho me propõe e que ela me relembra. Quero uma comunidade que esteja a minha inteira disposição para quando eu precisar, mas não estou disposto a renunciar meu namoro regado a encontros picantes, meu casamento temperado com brigas e indiferenças.
Quero desfrutar da atenção da comunidade sempre que precisar, mas que não me venham com essa de que tenho que ler a Palavra de Deus diariamente, ou ir à Missa, ou ir às ruas, ou às cadeias, ou a uma casa de acolhida para dependentes químicos.
Quero pregar sem precisar viver o que prego. Quero dar meu testemunho, mas, sem me importar se tal testemunho não passe apenas de uma mera lembrança de um passado que há muito, deixei para trás. Quero que as pessoas sejam fiéis para comigo, quando eu mesmo não sou fiel às que prometi amar, mesmo na dor.
Quero que a comunidade me compreenda e me aceite, mas não quero compreender e aceitar o que a comunidade me propõe como via segura de salvação.
Quero salvar almas, mas não estou disposto a permanecer lá onde o Senhor me plantou; nos vínculos sagrados que me unem a comunidade laical e que proferi numa Missa diante de Deus e dos irmãos; na juventude a quem também estou unido por meio da pertença que fiz publicamente e solenemente diante do altar de Deus e dos irmãos; na missão, sobretudo naquela que exige uma língua diferente da minha, um clima diferente do que estou acostumado, uma evangelização feita com anzol, totalmente na contramão daquela onde antes estivera quando a pesca era feita com redes.
Nós, que decidimos pertencer a um Carisma cuja meta é Jesus todo, precisamos fazer valer a radicalidade da decisão que abraçamos. Não queiramos outra coisa que não seja Jesus. Não percamos o foco. Centralizados em Jesus, descentralizemo-nos rumo às periferias existenciais. Nossa vida, vivida com autenticidade será capaz de gerar sentido àqueles que tiveram suas vidas roubadas por projetos de vida sem sentido, ou no máximo, fugazes e líquidos. Vida consagrada, laical e juvenil autêntica liberta homens e mulheres da droga e do álcool, da criminalidade e dos cárceres, da prostituição e da promiscuidade, da depressão e do vitimismo, do abandono e do egoísmo.
“Estes dias quaresmais nos convidam de maneira premente ao exercício da caridade; se desejamos chegar à Páscoa santificados em nosso ser, devemos pôr um interesse especialíssimo na aquisição desta virtude, que contém em si as demais e cobre multidão de pecados”, nos lembra São Leão Magno.
Unidos em torno do altar, unamos nossas vozes para suplicar com toda Igreja: “Concedei-nos, ó Deus onipotente, que, ao longo desta Quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo, e corresponder a seu amor por uma vida santa” (Oração da Coleta, Primeiro Domingo da Quaresma).

Pe. Gilson Sobreiro, pjc.

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