A dispensa estava vazia. O grupo ia aumentando, mas os alimentos ao contrário, diminuíam. Começamos a sentir na pele o que muitos pobres sentem diariamente: Fome!

De fato, os pobres nem mesmo sabem se vão ter o que comer no dia seguinte. Como eles, nós também queríamos viver do provisório Se cumpria àquilo que anos atrás disse a Santa de Lizieux, Santa Terezinha: É melhor que nos falte do que nos sobre.

Vamos rezar, dizíamos. Deus há de prover! Foi então que começou a vir chuchu. Passamos um bom tempo comendo chuchu. Continuávamos a rezar; Deus haverá de não nos deixar faltar o alimento.

Um belo dia, pára um carro na frente de nossa casa e o motorista começa a buzinar e a gritar: Providência, providência! Desci rapidamente e todo feliz da vida agradecia a Deus por sua bondade. Quando a porta do bagageiro se abre, imaginem o que era? Isso mesmo! Chuchu! Não me agüentando, comecei a rir muito e a pessoa que fizera a doação, sem saber o que estava acontecendo, começou a dizer: “Foi Deus quem mandou esses chuchus”. Ri mais ainda.

Eu te louvo ó Deus por tua divina providencia.

Depoimento de Pe. Gilson

Lembro me que quando entramos na casa, a maioria dos irmãos (as) não sabiam cozinhar. Não tínhamos muito que fazer, mas mesmo assim, cada um tinha seu dia na cozinha como acontece até hoje. Havia um irmão que era o “pior” de todos e num belo dia, ele resolveu fazer uma comida “diferente”. Juntou tudo o que tinha na cozinha: macarrão, arroz, feijão, fubá, chuchu e batata. Pôs tudo na panela e colocou também alguns temperos. Preparou com todo carinho o almoço e depois de pronto nos chamou para o grande banquete, mas aquela “coisa” que ele tinha feito, se recusava a sair da panela. Foi uma grande luta para colocar aquele objeto não identificado no prato, mas finalmente conseguimos. Era algo tão horrível, liguento, que até hoje ninguém descobriu do que se tratava. Precisava ser estudado pela NASA. O que fazer? Não tínhamos outra coisa para comer. O jeito foi enfrentar o “bicho”. Foi um horror. Todo mundo passou mal. Parecia que estávamos com um tijolo no estomago. Na época, havia na casa, alguns acolhidos por causa da dependência química e um deles entre gemidos e reclamações, fez a seguinte promessa: “se eu sobreviver a esta coisa, nunca mais ponho droga nenhuma em minha boca”.

Valeu filho predileto. Você cumpriu a promessa, está limpo, vivendo o Só Por Hoje. Parabéns e que Deus te abençoe.

Parabéns também a você irmão, que nos mostrou que quando fazemos alguma coisa com amor e dedicação, acertamos sempre, mesmo quando erramos.

Depoimento de Ir. Sônia

Quando entramos na casa, tínhamos muita vontade e porque não dizer coragem, mas nenhuma experiência de convívio com a dependência, ou seja, o que tínhamos era pura e tão somente teoria e nenhuma prática e Deus, logo no primeiro mês nos mandou um acolhido com sério problema de alcoolismo. Este senhor tinha terríveis alucinações. Na primeira noite, ele gritava e se defendia de um “monstro” que só ele via e todos nós ficávamos apavorados. Houve uma noite em que o tal “monstro” o perseguia por toda casa. Na época morávamos em um sobrado e ele queria se atirar da janela para fugir do tal bicho. Foi uma noite terrível e o pior é que quando ele se acalmou, nós ficávamos com tanto medo que também começamos a ver as coisas e a ouvir barulhos e chegamos à conclusão que a casa era mal assombrada. Por uns três dias mais ou menos, andávamos grudado um no outro. Ninguém ia ao banheiro sozinho. Dormir sozinho, nem pensar e ficávamos todo o tempo prestando atenção no nosso acolhido já que ele via os monstros mais perigosos. Nunca se rezou tanto naquela casa. Foi um tempo difícil, fomos aprendendo dia a dia como lidar com as situações que aparecia. Começamos a ler tudo sobre dependência, a procurar informações em cursos com pessoas que tinham experiência nesta área e acrescentamos ao nosso tratamento muito cuidado e amor a cada filho. A receita está dando certo até hoje. O nosso primeiro acolhido que tanto nos ensinou com suas crises de abstinência, continua limpo (sem droga).

Que maravilha é olhar para trás e ter a certeza que Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos. Aprendemos com isso, que não precisamos saber qual o final da estrada para podermos começar a andar porque como diz o nosso fundador Pe. Gilson, o caminho se faz caminhando.

Depoimento de Ir. Sônia