A ARMADURA DO CRISTÃO A ARMADURA DO CRISTÃO
COMO PROMETIDO: OS MEIOS DE COMBATER O MAL  Os meios de defesa e ataque Quais são os meios de defesa contra um perigo tão... A ARMADURA DO CRISTÃO

COMO PROMETIDO: OS MEIOS DE COMBATER O MAL 

Os meios de defesa e ataque

Quais são os meios de defesa contra um perigo tão traiçoeiro? Respondeu o Papa Paulo VI: “Poderemos dizer que tudo aquilo que nos defende do pecado nos protege, por isso mesmo, contra o inimigo invisível, a graça é a defesa decisiva. A inocência assume um aspecto de fortaleza. E, depois, todos devem recordar o que a pedagogia apostólica simbolizou na armadura de um soldado, ou seja, as virtudes que podem tornar o cristão invulnerável (cF. Rm 13,13; Ef 6,11-14-17; I Ts 5,8). O cristão deve ser militante; deve ser vigilante e forte (I Pd 5,8); e algumas vezes, deve recorrer a algum exército ascético especial, para afastar determinadas invasões diabólicas; Jesus ensina-o, indicando o remédio ‘ na oração e no jejum ‘ ( Mc 9,29). E o apóstolo indica a linha mestra que se deve seguir: ‘ Não te deixes vencer pelo mal; vence o mal com o bem’ (Rm 12,21; Mt 13 ,29). Conscientes, portanto, das presentes adversidades em que hoje se encontram as almas, a Igreja e o mundo, procuraremos dar sentido e eficácia a usual invocação da nossa oração principal: ‘Pai nosso… livrai-nos do mal’. Contribua para isso a nossa Bênção apostólica” (“Livrai-nos do mal”).

Fiéis às palavras do Santo Papa, procuraremos detalhar uma por uma das armas por ele sugerida. É claro que existem outras, como indiquei no livro “Santidade”, mas aqui nos deteremos somente nessas.

A graça

A graça é a participação na vida divina, dada pelo próprio Deus por meio de Seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus nos mereceu por Sua morte, todas as graças que havíamos perdido pelo pecado:
• A graça habitual, com seu cortejo de virtudes infusas e dons do Espírito Santo; e para melhor se adaptar a natureza humana, foram instituídos os sacramentos, sinais sensíveis que conferem a graça em todas as circunstâncias da vida: nascimento (Batismo), desenvolvimento (Eucaristia, Confissão, Crisma, Matrimônio, Ordem) e morte (Unção dos Enfermos).
• Graças atuais abundantíssimas, que temos direito de crer, até mais abundantes do que no estado de molência em virtude da palavra de São Paulo: “Ubi abundavit delictum, superabuna, vit gratia – onde abundou o pecado superabundu a graça”(Rm 5,20).

As virtudes

Junto à graça, se somam as virtudes que, como disse Paulo VI “podem tornar o cristão invulnerável”. As virtudes são princípios de ação de Deus em nós, que desempenham em nossas almas o papel de faculdades sobrenaturais e assim nos tornam aptos para a luta e a prática do bem.

O trecho da carta de São Paulo aos Efésios é bastante alusivo a esse combate.

Finalmente, irmãos fortalecei-vos no Senhor, pelo Seu soberano poder. Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares. Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o evangelho da paz. Sobretudo embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos do Maligno.
Tomai, enfim, o capacete da Salvação e a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus. Intensificai as vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos os cristãos” ( Ef 6, 10-18).

Um pouco de exegese sobre o texto, nos fará compreender mais profundamente as armas, que são as virtudes, a serem usadas por nós no combate contra o maligno.

v. II- “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio”.

A palavra armadura, no grego é “panoplia”. Ela é um composto de armas de defesa e de ataque. Vejamos uma por uma:

Armas de defesa:

• Capacete (parikephalia): feito de metal resistente para proteger a cabeça e que representa a salvação.
• O cinturão (zoma):é a peça que aperta as partes superiores e inferiores da armadura e onde se colocam as armas de guerra.Ele representa a verdade.
• A couraça/peitoral (thoráks): serviram para proteger os joelhos, a canela e uma extensão de couro que ia até os pés.
• Luva (cheirides): espécie de luva que protegia a mão, o antebraço e os cotovelos.
• Escudo: o maior deles se chamava “thureos”, semelhante a uma porta, servia de proteção para todo o corpo. Paulo o faz representar a fé.

Armas de ataque:

• A lança (egchos): Era comprida com uma ponta feita de bronze ou ferro.
• Dardo (daru): menor e mais leve que a lança, era atirado contra o adversário ainda à distância.
• Espada (ziphós): feita de bronze: Paulo a compara à presença do Espírito, sobretudo, na Palavra de Deus.
• Espada mais curta (machaira).
• Machado de guerra (aksine).
• Duplo machado de guerra (pelekus).
• A maça (korune): espécie de bola de ferro com espinhos.
• O arco (tokson); a aljava (phareta); as fechas (bele).
• Funda (sphdone): é a arma que Davi usou contra Golias.
• Dardo (akontion), espécie de zarabatana.

Você percebeu que existem mais armas de ataque do que de defesa? Significa dizer que vestimos a armadura não só para nos defendermos, mas, sobretudo, para contra-atacarmos. É como se Paulo quisesse dizer: Basta de ficar na defensiva, chegou à hora de partirmos para ofensiva.

É justamente esse o sentido do verbo resistir, usado por Paulo. No original (grego), aparece istemi, cuja tradução é ainda mais forte: oferecer resistência. Essa seria uma tradução mais literal para a palavra istemi. Mais que resistir, precisamos nos colocar na batalha, não como alguém que ainda pode ser pego de surpresa pelas ciladas do inimigo, mas como alguém que aí se encontra para enfrentá-lo.
Outra palavra que aparece no texto e que também precisa ser compreendida é cilada. No grego vamos encontrar a palavra methodeia, que equivaleria a um projeto, plano, esquema. Porém, no contexto que ela é usada (que é o de uma guerra), a sua melhor tradução seria “estratagemas”. Com isso Paulo nos alerta para o fato de que o inimigo maquina “dia e noite” contra nós.

v.12- “Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhada)nos ares”.

Não podemos entrar nessa luta inocentemente, pensando que o mal é um produto causado somente pelo homem. Paulo nos exorta a vermos além das aparências. Há também uma força maligna, invisível, agindo por detrás, impelindo os homens para o mal. Por trás daqueles que buscam a felicidade no dinheiro e nos prazeres imediatos, dos que pregam que Deus já não é mais necessário, dos que são movidos pelos costumes e convenções da maioria, dos que pregam que não existem mais verdades absolutas, pois instaurou-se o reino do relativismo e com ela a convicção de que a liberdade consiste no fazer aquilo que se quer: estruturas que matam a vida e promovem o ódio, o xenofobismo e a perseguição da Igreja de Deus, etc. Existe aí uma influência nefasta do demônio, que São Paulo agrupa da seguinte maneira:

PrincipadosArche Kai Ezousias – São os primeiros que governam.

Potestades – Eklousia – autoridade submissa à primeira hierarquia.

Dominadores deste mundokosmokraton – provavelmente os demônios.

Forças Espirituaispneumatikos – seres espirituais malignos.

Tudo isto nos dá a ideia de quanto esse exército maligno é numeroso e que somente revestidos da armadura de Deus, ou seja, de todos as virtudes, é que poderemos vencê-lo.

v.13- “Tomai, portanto, a armadura de Deus para que possais resistir nos dias maus e manter-nos inabaláveis no cumprimento do vosso dever”.

Essa armadura é pessoal e intransferível, pois assim também é a luta. O termo grego para luta é “pale” que indica a luta romana do corpo-a-corpo. O apóstolo Paulo vê a batalha espiritual dessa forma, como um corpo-a-corpo contra Satanás e suas hostes malignas. Assim, como os soldados precisam treinar para guerra, para aprenderem a manusear as armas e portar tão pesada armadura, assim também deve ser o cristão. O treinamento tem que ser diário e repetitivo e por isso mesmo é que muitos desistem, porque pensam que para obter a vitória não precisam de esforços. Quantas pessoas que na caminhada não fizeram propósitos e que passado algum tempo não desistiram por falta de disciplina e perseverança. “Nenhum atleta será coroado se não tiver lutado segundo as regras” (2Tm 2,5).

Uma vez mais, o apóstolo insiste para que nos revistamos da armadura de Deus. Paulo bem sabe que só ganha essa guerra quem vive em Deus.

A expressão “possais resistir” é anthistemi no grego que quer dizer “firmar-se contra”. Possui o mesmo sentido que vimos no versículo 11; ir para o campo de batalha decidido a enfrentar o mal.

O versículo termina fazendo uma alusão aos dias maus que, conforme Paulo, precederiam a segunda vinda de Cristo. Segundo o que o próprio Jesus ensinou aos Seus discípulos: “Logo após estes dias de tribulação o sol escurecerá, a lua não terá claridade, cairão do céu as estrelas e as potências do céu serão abaladas” (Mt 24,29)

v.14- “Ficai alerta, a cintura cingida com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça”.

Começam a aparecer às virtudes, as armas que deverão ser utilizadas na guerra.

O cinturão, como vimos, era a peça que firmava as diversas partes da armadura, assim como a que portava todas as armas. São Paulo, ao comparar a virtude da verdade ao cinturão, quer nos mostrar que sem a verdade, nenhuma das outras virtudes por si só se mantêm. Isso porque ele bem sabe que o inimigo é o Pai da mentira e todo aquele que mente, se filia a sua natureza: “Vós vendes como pai o demônio, e quereis fazer os desejos de vosso pai.Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque a verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 3, 44).

A couraça ou o peitoral era a peça da armadura que protegia os órgãos vitais – coração, rins, estômago, etc. Paulo a compara com a justiça, que é a virtude da retidão, que não permite vacilara na batalha, e é ela que faz reinar a ordem, que respeita o direito de cada um, sobretudo do pequeno e humilde. Sem ela, só existiriam injustiças e o mal triunfaria.

v.15- “E os pés calçados de prontidão para anunciar o evangelho da paz”.

Uma referencia aqui ao profeta Isaías: “Como são belos sobre as montanhas os pés do mensageiro que anuncia a felicidade, que traz a Boa Nova e anuncia a libertação; que diz teu Deus reina” (Is. 52,7)

v.16- “Sobretudo embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligni”.

Durante as batalhas, uma das estratégias mais usadas era a de lançar uma chuva de flechas chamejantes sobre o exército adversário. A única maneira de se defender era se proteger atrás do escudo.
Essa estratégia é muito mais usada pelo vil adversário. Quantas mentiras duvidas, incertezas, confusões ele não continua lançando diariamente sobre o coração dos homens, e quantos infelizmente, não se deixam enganar. Por todos os lados vemos suas flechas incendiarias – relativismo, hedonismo, paganismo, ateísmo, satanismo, ocultismo e tantos outros “ismos” que conhecemos. Somente empunhando o escudo da fé, podemos apagar esses dardos infernais. A vitoria que vence o mundo é a nossa fé. (I Jo 5,4)

v.17- “Tomai,enfim, o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é,a palavra de Deus”.

O capacete protege a cabeça, e Cristo é a cabeça do corpo que é a Igreja (Cl 1,18) e salvação (Is 59,17). A espada é a Palavra de Deus saída de sua própria boca (Ap 19,15). “Viva e eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração”(Hb 4,12).

Quando o soldado terminava de colocar a armadura, seu escudeiro lhe trazia o capacete e a espada, significando que já estava pronto para a batalha. Assim acontece conosco, depois de termos possuídos todas as outras virtudes, algumas delas adquiridas pelo nosso próprio esforço (virtudes morais), outras concorrentes a nossa humanidade (virtudes naturais) – a Salvação e a Palavra Inspirada foram dadas pelo próprio Deus e não a teríamos se nos valêssemos apenas das nossas forças e esforços.

v.18- “Intensificai as vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos os cristãos”.

Logo após terem se revestidos de suas respectivas armaduras, os soldados costumavam se reunir para oferecerem súplicas aos seus deuses. São Paulo faz uso desse antigo costume militar pagão, para pedir aos cristãos que façam o mesmo ao verdadeiro Deus. O fervor dessas orações deve ser feito de forma veemente, que é o que transparece nos termos que ele usa.

Invocações – grego preseuche – que significa literalmente “imploração”. O sentido aqui é o de pedir ininterruptamente, como faziam os soldados.

Súplica, no grego deesis, significa pedir por algo mais especifico, ou seja, é preciso determinar a oração num único sentido que é a vitória sob o Maligno e sua legião. Isso tem que ser feito a toda hora, em todo lugar, em qualquer circunstância, pela ação do Espírito que ora em nós (Rm 8, 26-27). Pois, como poderíamos deixar de fazê-lo se estamos constantemente em ordem de batalha? É o que está subentendido para São Paulo quando ele usa a expressão “vigília de súplicas”. Não dá para “dormir”, é preciso orar, vigiar e lutar.

FONTE: DESMASCARANDO O INIMIGO, PE. GILSON SOBREIRO

  • Fábio

    22/02/2012 #1 Author

    Como vencer se não estivermos revestidos com esta armadura?
    Obrigado Senhor por nos revestir desta forma.

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