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Semana Santa 2017 Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel? (At 1,6). Era essa a pergunta, pertinente pergunta, que os apóstolos... Semana Santa

Semana Santa 2017

Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel? (At 1,6). Era essa a pergunta, pertinente pergunta, que os apóstolos fizeram ao Senhor antes que ascendera ao Céu, e que gostariam de vê-la respondida.
No epicentro da história bíblica, bem como no coração de cada israelita, residia a amarga recordação de ter perdido o REINO. Eis o porquê da pergunta dos apóstolos. Como todo Israel eles, também, esperavam ansiosamente pela sua restauração.
Desde o paraíso Deus conferiu ao homem o poder de “dominar” a terra. Ao soprar a vida em Adão, Ele lhe concedeu o espirito de filiação. Adão deveria governar a criação como filho de Deus. Portanto, Deus prepara para o homem um Reino e lhe confere, através de uma aliança eterna, autoridade para governar.
Pesarosamente tal autoridade é perdida quando nossos primeiros pais ao serem subjugados pela serpente, perdem a autoridade de dominar. Aos homens de todos os tempos Deus confere o poder de dominar, antes, que qualquer criatura, a si mesmo e as serpentes astuciosas que o cercam e o tentam. Não dominando a besta que os desafiou, nossos primeiros pais perderam o Reino e o seu reinado. Não! Vós não morrereis! Sofismou a serpente. Vossos olhos se abrirão e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal!(Gn 3,4-5). Ser como Deus, decidindo de modo autônomo, e não como filho, o que é certo e o que é errado. Eis aí as origens do antropoteísmo – do culto ao homem-deus -que nos tempos atuais, tornou-se absoluto e radical.
O proselitismo, através do qual, arrebanha uma multidão cada vez maior de neófitos, é o mesmo usado pela antiga serpente. Se apresenta quase sempre através de um diálogo filosófico cheio de boas intenções que a tudo questiona e vê nisso a origem de todo sano conhecimento. É verdade que Deus vos disse, não comereis de nenhuma das árvores do jardim? É verdade? Tem certeza? Porque? Para a nova religião não existem mais verdades, ou se existem são pessoais e relativas, pois ela odeia verdades do tipo: Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo Evangelho salvá-la-á! (Mc 8,35).Senhor, a quem iremos? Só Tu tens palavras de vida eterna.  Nós cremos e reconhecemos que Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo. (Jo 6, 68-69).
O próximo passo desse diálogo sofista, é fazer promessas que não podem ser cumpridas: Sereis como Deus! Ser como Deus, decidindo o que é o bem e o que é o mal, e usando como único e absoluto critério, o que mais se acomodam as minhas necessidades individuais, ao meu egoísta projeto de felicidade pessoal, a uma cômoda vida regrada pelos apetites instantâneos.  Eis nosso sonho, nossa loucura, nossa mais triste ilusão! Tudo mentira travestida de verdade atraente, veiculada através do poder irresistível do marketing e da mídia.
A pergunta que Mitia, personagem de Dostoievski em “Os Irmãos Karamazov” fez aos seus interlocutores evidencia bem a tragédia do homem-deus. Que se tornaria o homem, sem Deus e a imortalidade? Um ser para o qual tudo é permitido e tudo é licito… e no final, a triste constatação de que, assim como nossos primeiros pais, é um ser nu, temporal, frágil, que mata por inveja, que oprime por poder, que se vende por prazer, carente de amor, insatisfeito e insaciável. Entregue à própria sorte, a única coisa que lhe restará, como dissemos acima, é a triste constatação que a promessa feita pela serpente – Não morrereis – não passou de propaganda enganosa, pois, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão (Rm 5,14).
As páginas da Sagrada Escritura, estão repletas de tentativas feitas por Deus, para levar a cabo a obra de salvação do homem. De tão numerosas que são, chegam a merecer do salmista uma exclamativa comprovação: Que é o homem, para dele vos lembrardes? Que são os filhos de Adão, para que deles vos ocupeis? (Sl 8,5).
À Aliança Adâmica e Noética se somarão as Alianças Abraâmica, Mosaica, Davídica. Aparecerão os Profetas Isaias, Jeremias, Elias, Zacarias, Elizeu, Malaquias, Daniel, Amós. Ezequiel, Samuel, Jonas, Naum, Miquéias, Habacuc, Oséias… matriarcas, juízas e profetizas: Sara, Rebeca, Raquel, Débora, Hulda, Ester, Mirian, Rute, Judite, a mãe dos Macabeus, Ana…
Contra toda esperança e diante de toda impossibilidade de realização, Deus fez brotar do velho tronco de Jessé um Rebento:Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará (Is 11,1).
Ele veio e morreu de uma forma tão violenta – reservada apenas aos infames – que ninguém poderia imaginar que Ele era o Filho de Deus, Senhor e Rei.
Consideremos a profunda decepção dos discípulos após a morte de Jesus: Nós esperávamos que fosse Ele quem haveria de restaurar Israel (Lc 24,21). Eles esperavam uma restauração que suscitasse um reino triunfante, opulento e milicial. Jamais esperariam uma restauração que implicasse no sofrimento, na morte e num ‘fracasso’.
Essa angustia não poucas vezes é também a nossa. Diante do sofrimento humano, do crescimento verticial do império do mal, das contradições dentro da própria Igreja chegamos também a nos perguntar: É esse o Reino que Deus prometeu?
O problema muitas vezes está nas nossas falsas expectativas do Reino (triunfantes e opulentas) e não no Reino mesmo que o Senhor inaugurou com sua morte.
Eis o sangue da nova e eterna Aliança (Lc 22,20). Na elevação do seu corpo pendente na Cruz, como o cálice levantado na última Ceia, o que estava dividido foi unificado, o que estava disperso foi reunido, o que antes era privilégio concedido a um povo foi universalizado a toda a humanidade. Eis a razão de ser de nossa fé CATÓLICA, assim como a salvação, ela é UNIVERSAL.
O que Deus dissera pela boca do profeta, se cumprira plenamente no nosso Salvador: Dias hão de vir, oráculo do Senhor – em que firmarei uma nova aliança com a casa de Israel (Jr 31, 31). Aquela última Ceia selou, de uma vez para sempre, a presença do Reino em meio a nós. Jesus nos diz que ela é sinal evidente do Reino antecipado e esperado: Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco antes de sofrer. Pois vos digo: não tornarei a comê-la, até que ela se cumpra no Reino de Deus. Pegando o cálice, deu graças e disse: tomai este cálice e distribuí-lo entre vós. Pois vos digo: já não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus (Lc 22,15-18).
É a Ceia da renovação da Aliança, como a Páscoa era a renovação da Aliança feita com Moisés, um dos sinais mais evidentes do Reino entre nós. Quando participamos da Eucaristia, atualizamos a presença do Reino no nosso meio e esperamos a sua vinda definitiva: Também eu disponho para vós o Reino, como o meu Pai o dispôs para Mim, a fim de que comais e bebais à minha mesa em meu Reino, e vos senteis em tronos para julgar as doze tribos de Israel (Lc 22,29-30). Os privilégios da Aliança, são agora estendidos para além da Casa de Davi, ou seja, a todos os apóstolos. Estes, como Cristo, são agora herdeiros do Reino e porque são herdeiros, gozam dos privilégios dos filhos de Deus: eles comem à mesa real e se sentam em tronos da Casa Real, para julgar as doze tribos.
A promessa do Reino é cumprida com a autoridade serviçal conferida aos Apóstolos e com a promessa da comunhão à mesa continuada na prática Eucarística da Igreja.
Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel? A resposta de Jesus não incentiva qualquer especulação sobre o momento exato desse acontecimento: Não compete a vós conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com a sua própria autoridade (At 6,7), por outro lado Ele descreve os meios através dos quais o Reino seria restaurado; mediante o TESTEMUNHO dos Apóstolos que agem sob a ação do Espirito: Mas recebereis uma força, a do Espirito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e a Samaria, a até os confins da terra (At 1,8).
Os discípulos esperavam um reino nacional e territorial, Jesus lhes dá – nos dá – um Reino Católico (universal). Ele restaura o grupo dos doze mediante a substituição de Judas por Matias e uma vez reconstituídos, o evento de Pentecostes marcará a restauração de Israel, tão desejada pelos discípulos.
A RESTAURAÇÃO será sempre uma marca do Reino, meus amados irmãs e irmãs. Quando o ardor do trabalho, o entusiasmo e a disposição parecerem desgastar, descolorir, desanimar, Ele os restaurará. Tudo fará novo. Eis que faço nova todas as coisas (Ap 21,5). Quando alguém, ao longo do caminho, nos deixar, não esmoreçamos, pois, um outro receberá o seu encargo (At 1,20), como dissera Pedro por ocasião da escolha de Matias para o grupo dos Apóstolos. Quando a vida e a opção feita parecer pesar recorramos, sem hesitar a Ele: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve (Mt 11.28-30).
Me permitam fazer um oportuno parêntese diante dessa última citação. O jugo ou canga ou ainda cambão, era uma peça de madeira, colocado no pescoço dos animais. Com esse aparelho em seus pescoços eles puxavam o arado e preparavam a terra para a lavoura. Não se colocava o jugo em apenas um animal, era preciso dois. Também não se colocava o jugo no ombro de dois animais de espécies diferentes (Dt 22.10), pois, isso poderia dificultar o trabalho e quebrar o pescoço de um deles. Não carregue seus fardos sozinhos, pois com o passar do tempo ele se tornará cada vez mais pesado e nem tampouco os divida com ninguém que não compreenda tuas opções e nem partilhe contigo dos mesmos ideais, por mais que isso possa parecer trazer um alivio imediato. Deixe que Ele os carregue contigo. Ao teu lado, eles serão mais suaves e leves.
O TESTEMUNHO é outra marca do Reino. Uma das marcas mais críveis. Foi a marca da primeira comunidade dos discípulos de Jesus: Eles eram assíduos ao ensinamento dos apóstolos e à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. O temor se apoderava de todo mundo: muitos prodígios e sinais se realizavam pelos apóstolos. Todos os que abraçaram a fé estavam unidos, e tudo partilhavam. Vendiam as suas propriedades e os seus bens para repartir o dinheiro apurado entre todos, segundo as necessidades de cada um. De comum acordo, iam diariamente ao Templo com assiduidade: partiam o pão em casa, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram favoravelmente aceitos por todo o povo. E o Senhor ajuntava cada dia à comunidade os que encontravam a salvação. (At 2,42-47).
O mundo e a Igreja, mais do que nunca precisam ver o testemunho daqueles que continuam sendo assíduos, fiéis, e perseverantes aos ensinamentos do Senhor. Precisamos, com nossa permanência dizer que Deus não tem prazo de validade, e que não fomos a Ele somente para “passarmos uma chuva”. Foi a permanência dos primeiros cristãos que mesmo em meio aos piores sofrimentos que lhes foram imputados, a responsável pela conversão de centenas de homens e mulheres do mundo pagão. Permanecer mesmo quando doer. Como São Policarpo, bispo de Esmirna, que próximo a ser martirizado e já com 86 anos, se recusou a negar Jesus: Eu o sirvo há oitenta e seis anos, e ele não me fez nenhum mal. Como poderia blasfemar contra o meu Rei que me salvou?
A UNIVERSALIDADE DA SALVAÇÃO é outra grande marca do Reino: … e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e a Samaria, a até os confins da terra (At 1,8). Pela boca de Paulo, no final do livro dos Atos, essa verdade é como que atestada pela Igreja nascente: Ficai, pois, cientes; aos gentios é enviada esta salvação de Deus. E eles a ouvirão (At 28,28).
Deus deu à sua Igreja um caráter universal porque quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (cf. 2Tm 2,1-5). Essa verdade que salva foi confiada à Igreja por Jesus, para ser levada a todos os homens. Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu Corpo (Col 1,17).
Há imperfeiçoes sim na Igreja, mas isso não a descredibiliza. Nas parábolas sobre o Reino Jesus nos preveniu de que existiria o joio no trigo, peixes bons ruins na rede de pesca. A Igreja, como nós a conhecemos – Una, santa, Católica, Apostólica – cheia de pecadores desejosos de conversão, é a Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade (1Tm 3,15).
O que fazer quando o anuncio da salvação esbarrar no contratesmunho dos filhos da Igreja? Permanecer acreditando e anunciando. Disso o Beato Charles de Foucauld, que passou a maior parte de sua vida entre os tuaregues da Argélia, nos dá um grandioso testemunho: Se a nossa religião é realmente a verdadeira, se o Evangelho é verdadeiramente a Palavra de Deus, então temos de acreditar e de viver de acordo com ele, ainda que o fizéssemos totalmente sozinhos. Quando perguntaram a Santa Teresa de Calcutá o que seria necessário para mudar a Igreja ela respondeu: Você e Eu!
Do que precisa o homem para salvar-se? Respondendo a essa pergunta, São Tomás de Aquino, diz, de três coisas: Saber o que acreditar, saber o que esperar, saber o que fazer. Acreditar em Deus, esperar pela eternidade e viver de acordo com essa fé e essa esperança como os discípulos viveram. Temos tudo isso meus amados irmãos e irmãs. O que estamos esperando? Enchamos nossos pulmões de esperança nessa Semana Santa. Participemos ativa, consciente e piedosamente de cada uma das Celebrações que compõem o conjunto dessa santa Semana. Acompanhemos Jesus entrando humildemente em Jerusalém no Domingo de Ramos, ceando na intimidade daquela casa com seus amados discípulos, suando sangue na noite da traição, espancado diante das multidões, coroado de espinhos, e humilhado, pendente no alto de uma cruz. Coloquemo-nos, com Maria, ao lado do seu madeiro, e também com ela, esperemos silenciosamente pela sua Ressurreição.
Eis que os dias santos se aproximam! Dias em que veremos a vida vencer a morte, a alegria superar a tristeza, o fazer valer a pena triunfar sobre todo desanimo. Deixa que teu coração, uma vez mais, arda de amor por Jesus e pelas suas causas, pois, como nos disse santo Agostinho, só quem arde, pode também incendiar os outros.
Santos dias, Santa Semana e uma ardorosa Páscoa!

Vosso fundador,
Pe. Gilson Sobreiro, pjc

 

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