Páscoa 2018 Páscoa 2018
           Páscoa 2018             O nosso grande retiro quaresmal chegou ao fim. A Noite Santa,... Páscoa 2018

           Páscoa 2018

            O nosso grande retiro quaresmal chegou ao fim. A Noite Santa, em que celebramos a Vigília Pascal, foi o seu fenecimento e, ao mesmo tempo, o começo de um novo tempo. Oh Noite venturosa, mais clara que o mais intenso dia de verão; os filhos da Igreja, novo povo de Deus, regenerado pelo Sangue do Cordeiro, haverão de ti lembrar, hoje e sempre e pelos séculos vindouros.
Esta é a noite em que outrora tirastes do Egito a nossos primeiros pais, filhos de Israel, e os fizestes atravessar a pé enxuto o Mar Vermelho.
             Esta é a noite que dissipou as trevas do pecado com a luz de uma coluna de fogo.
            Esta é a noite que, através de toda a terra, arrancando, aos vícios do século e à cegueira do pecado, os que creem em Cristo, os restituiu à graça e à sociedade dos santos.
             Esta é a noite em que, destruídos os grilhões da morte, Cristo se ergueu vitorioso das trevas do sepulcro.
            Ó noite verdadeiramente bendita, única a saber o tempo e a hora em que Cristo ressuscitou de entre os mortos! É esta a noite acerca da qual está escrito: A noite brilhará como o dia e a luz dessa noite fará as minhas delicias. (Cântico do Exsúltet).
Noite de Luz. Noite que se faz dia. A partir dessa noite, a luz do Ressuscitado entra nas noites escuras das nossas vidas, transformando nosso caos em cosmo.
Na Vigília Pascal, a Igreja representa o mistério da luz de Cristo no sinal do Círio Pascal. No Círio Pascal, todos acendemos as nossas velas. Esse gesto quer nos dizer que todos nós fomos introduzidos dentro da luz de Cristo, nos tornando, assim, anthrophosphorus (antrofósforus) homens da luz.
O mesmo Jesus que diz: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8, 12) é o mesmo que diz: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Nesse Vós, estamos nós, está a nossa Fraternidade. Não estamos sozinhos na vivência da nossa fé. Outros nos precederam, outros estão ao nosso lado e outros nos precederão. Somos frutos da fé que brilhou em alguém, por meio do seu testemunho, da sua palavra e das suas obras. Ninguém chega a crer, nos disse Bento XVI, senão for sustentado pela fé dos outros (Discurso aos jovens, 25 de setembro de 2011, Alemanha). Talvez seja oportuno nos perguntar: através da minha fé estou contribuindo para confirmar a fé dos outros?
Disse Jesus: “Ninguém acende uma lâmpada para a cobrir com um recipiente, nem para colocá-la debaixo da cama, ao contrário, coloca-a num candelabro, para que aqueles que entram vejam a luz” (Lc 8, 16). O mundo precisa ser levedado pela vida daqueles que se encontraram com o Cristo Vivo e Ressuscitado. Só o testemunho, acompanhado do anúncio claro e inelutável de Jesus, pode alcançar o coração do homem.  O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas (Evangelii Nuntiandi, 41).
Por força do vosso testemunho, irmãos e irmãs, membros de nossa Fraternidade, podeis aflorar no coração daqueles que vos são próximos e que assim os veem viver, perguntas indeclináveis do tipo: Por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é, ou quem é, que os inspira? Diz a sábia máxima latina, verba movent, exempla trahunt –  as palavras comovem, mas os exemplos arrastam.
No mundo de hoje há um vazio, uma desertificação espiritual, como chamara o Papa Bento XVI, no entanto, é precisamente a partir desse vazio que você, que eu, que nós, somos chamados a testemunhar aquela esperança que é própria dos que creem. É no deserto que existe a necessidade de pessoas de fé que, com suas próprias vidas, indiquem o caminho para a Terra Prometida.
O mundo tem sede de respostas e nós não podemos nos dar ao luxo de ficarmos em torno do nosso próprio umbigo, ou seja, dos nossos próprios problemas. Estou convencido de que, se sairmos ao encontro dos demais para apresentarmos de maneira apropriada o Evangelho, nossos problemas se diluirão e se resolverão.
Se resolverão os problemas daquela comunidade religiosa, laical e juvenil, que passa tempo demais envolta em coisinhas do tipo: necessidade de atenção, ciúmes, carências, disputas pelos primeiros lugares, auto-referencialidade, fofocas, divergências de ideias, etc.
Meus amados irmãos e irmãs, esse mundo precisa D-E-S-E-S-P-E-R-A-D-A-M-E-N-T-E de um avivamento espiritual. E ele só virá pela força da tua VIDA NOVA em Cristo Jesus: “Fomos sepultados com Ele na morte por meio do batismo, com o propósito de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma nova vida” (Rm 6, 4). É dessa certeza que somos chamados a viver: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas, eis que se fez realidade nova” (2Cor 5,17).
O Apóstolo Paulo disse, viver. Viver é testemunhar. Viver é crer. Ainda que não saibamos tudo, que não entendamos tudo. Mas Ele não pediu que compreendêssemos tudo. Ele pediu apenas que vivêssemos e crêssemos: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em Mim jamais morrerá. Crês nisso?” (Jo 11, 25-26).  E qualquer pessoa pode crer. Um idoso pode crer, um jovem pode crer, uma criança pode crer, um cego pode crer, um surdo pode crer, um mudo pode crer, um drogado pode crer, um mendigo pode crer, um preso pode crer.
Crer significa, antes de tudo, ter um sentido para viver. Ter um propósito que dá sentido à toda nossa existência e a cada dia dela, em particular. Crer é poder dizer sem titubear: Eu sei de onde eu vim, eu sei porque eu estou aqui e eu sei para onde eu vou.
Foi exatamente para isso que Ele veio, que Ele sofreu e que Ele ressuscitou. Foi para que eu e você pudéssemos saber quem somos, de onde viemos e para onde vamos.
Somos imagem e semelhança Sua (cf. Gn 1,27).
Viemos do Pai, de quem tudo procede e para quem vivemos; em um só Senhor, Jesus Cristo, por intermédio de quem tudo o que há veio a existir, e por meio de quem também vivemos (1Cor 8,6).
Vamos para a casa do nosso Pai: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vô-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” (Jo 14, 1-3).
Ele está vivo! O Ressuscitado está vivo no meio de nós. No seu corpo glorioso podemos ver a as marcas pelas quais fomos salvos (cf. Is 53, 4). O comovente extrato de uma antiga Homilia de Santo Epifânio, bispo de Salamina, expressa perfeitamente o significado da sua paixão pascal: Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi; para restituir-te o sopro da vida original. Vê nas minhas faces as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, a tua beleza corrompida. Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti, para retirar dos teus ombros os pesos dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente tuas mãos para a árvore do paraíso. Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava voltada contra ti.
Essa é a mensagem, a única mensagem, que pode mudar o rumo de uma vida. Deus me ama e por amor morreu por mim numa cruz. É por isso que o Senhor Jesus, Vivo e Ressuscitado trás as marcas da paixão, para nos lembrar até onde Ele chegou por amor a nós.
A Luz da ressurreição não elimina a paixão, pelo contrário, a exige. O simbolismo que acompanha a preparação do Círio Pascal, deixa isso bem evidente. Antes de acendê-lo, o sacerdote traça sobre ele, com a ajuda de um estilete a cruz, em seguida, crava os cinco grãos de incenso dizendo, por suas santas Chagas, suas Chagas gloriosas, o Cristo Senhor nos proteja e nos guarde.
           Eu não sei como você se encontra nesse exato momento. Se estiver puro, irreprovável e sem defeito, brilhando em meio a uma geração má e pervertida (cf. Fl 2, 15), eu quero louvar e bendizer ao Senhor Jesus por isso, mas se por acaso você estiver caído por causa do pecado, eu quero te convidar a olhar para Jesus, para as marcas da sua paixão, e a te levantar, pois pior que estar caído é não querer se levantar.
Como fundador posso afirmar que existem membros de nossa Obra que precisam ser reencontrados pelo Senhor. Por muitas vezes tenho me angustiado ao ver filhos e filhas desse Carisma que, mesmo tendo experimentado o amor do Senhor tão intensamente, hoje se encontram longe d’Ele. A casa que outrora fora limpa, hoje encontra habitada por mais inquilinos que antes. “Quando um espírito imundo sai de um homem, passa por lugares áridos procurando descanso e, não o encontrando, diz: ‘Voltarei para a casa de onde saí’. Quando chega, encontra a casa varrida e em ordem. Então vai e traz outros sete espíritos piores do que ele, e entrando passam a viver ali. E o estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro” (Lc 11, 24-26). Esses, pensam que chegaram ao limite das próprias forças e que já não conseguem mais lutar contra o homem velho. Creiam-me, ainda não é o limite das forças, pois, “ainda não resististes até ao sangue, na luta contra o pecado” (Hb 12, 4).
Por outro lado, existem aqueles que aparentemente não se afastaram d’Ele. Esses continuam frequentando a comunidade (ou vão nela de vez em quando), continuam assumindo mornamente (de morno) o seu ministério, continuam frequentando as formações e retiros, mas como disse o Senhor: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim “ (Mt 15, 8).
Há, ainda, a realidade daqueles que são sinceros na sua entrega ao Senhor, mas que, por vezes, se angustiam ao verem-se em realidades de servidão às próprias concupiscências e pecados de estima.
Meu amado irmão e irmã, seja qual for a tua situação, acredite, ao contrário do que parece, ela é, justamente, o teu ponto de partida, e não o final da estrada.
Ergue-te! Se você tiver que voltar ao lugar onde tudo começou, volte. Se tiver que juntar os cacos, junte. Não tenha medo de reconhecer-te como pecador. Lembre-se, Jesus foi pendurado nu, para que não tivéssemos vergonha de apresentar os nossos piores pecados. Ele já assumiu a nossa vergonha.
          Quae sursum sunt sápite!Tende gosto pelas coisas do alto” (Col 3, 2). Olhai para a Cruz. Olhai para as marcas do Ressuscitado. Olhando para baixo só poderás ver os teus próprios pés e o teu próprio umbigo.
A cruz e a ressurreição de Cristo oferecem perdão para todos os pecados. Oferecem uma vida completamente nova. Basta darmos o primeiro passo em sua direção. Dá o primeiro passo e não tardarás a ver que logo estarás caminhando. O perdão se encontra no caminho. A cura se encontra no caminho. “Curai-me, Senhor, e serei curado, salvai-me e serei salvo, porque vós sois a minha glória” (Jr 17, 14).
Convido a todas mulheres da nossa Fraternidade a anunciarem com parresia, o Cristo vivo, passionado e ressuscitado, como fizeram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago (cf. Lc 24, 1-11).
Convido a todos os homens da nossa Fraternidade a anunciarem com parresia, o Cristo vivo, passionado e ressuscitado, como fizeram Cléofas e o outro discípulo de Emaús (cf. Lc 24, 13-35).

Feliz Páscoa!

Pe. Gilson Sobreiro, pjc
Toulon, 31 de março de 2018, do Ano do Espírito Santo e do Laicato.

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